O Brasil acumulou uma redução de 22% nas emissões de gases de efeito estufa somente em 2024. O desempenho levou o país a subir uma posição no ranking do Índice de Desempenho em Mudanças Climáticas 2026 (CCPI 2026, na sigla em inglês). Lançado na terça-feira (18), na Zona Azul da COP30, a 21ª edição do relatório mostra que o país teve avanços, mas ainda precisa acelerar o ritmo das mudanças.
O estudo elaborado pelas organizações internacionais Germanwatch, NewClimate Institute e CAN International, monitora os esforços de mitigação climática de 63 países e da União Europeia. Juntos, tais países são responsáveis por mais de 90% das emissões globais de Gases de Efeito Estufa (GEE).
Ocupando a 27ª posição no CCPI, o Brasil sobe uma posição, mas ainda se mantém entre os países com desempenho médio, com variações de desempenho nas principais categorias do índice. O país obteve uma classificação elevada em Política Climática, média em Energia Renovável e Uso de Energia, mas baixa em Emissões de GEE. O país ainda registrou uma redução geral do desmatamento e um aumento da eletricidade renovável.
Segundo aponta o relatório, “desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o cargo em janeiro de 2023, a política climática geral do Brasil melhorou”. Em 2024, o desmatamento na Amazônia caiu 28% e no Cerrado, 25%. Os alertas de desmatamento ficaram abaixo dos níveis de 2024 em ambos os biomas, o que, na avaliação dos pesquisadores, “coloca o Brasil no caminho certo para cumprir sua meta de NDC para 2025”.
Outro ponto de destaque do relatório em relação ao desempenho do Brasil foi o crescimento das energias renováveis, considerando que, nos últimos dois anos, a energia solar e eólica aumentou 70% no país, passando de 51 GW para 86,8 GW - principalmente devido à geração em pequena escala. Apesar dos ganhos em energia renovável, o documento aponta como negativa a dependência do Brasil em relação aos combustíveis fósseis. Entre as principais recomendações feitas pelo relatório para o país, está a adoção de “estratégia para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e seus subsídios, incluindo um plano financeiro para garantir 100% de energias renováveis até 2050”.
Durante a apresentação do relatório, na COP30, a especialista em política climática do Observatório do Clima, Stela Herschmann, destacou que a redução nas emissões registradas no Brasil está muito ligada à própria redução percebida no desmatamento. "Retomamos com sucesso as nossas políticas de combate ao desmatamento na Amazônia, o que resultou em uma redução de 30% nas taxas de desmatamento em 2024. E como as emissões no Brasil estão tão intimamente ligadas ao desmatamento, isso se traduziu em uma redução de 22% nas emissões somente em 2024”, pontuou. “Esta é provavelmente a maior queda nas emissões do G20 em um único ano. E isso significa que o Brasil provavelmente subirá algumas posições no próximo índice CCPI. Eu espero que sim”.
A finalização e apresentação do relatório do Mapa do Caminho de Baku a Belém fez com que a COP30 iniciasse já com esse resultado positivo. “Agora, para os próximos anos, para essa agenda de implementação que o Brasil tem dialogado e colocado como mote dessa COP, a gente já tem um mapa do que os países, do que que os bancos multilaterais de desenvolvimento, do que os fundos verticais climáticos têm que fazer para entregar mais financiamento para país em desenvolvimento. Então foi muito positivo, a gente começa a COP com menos um item pendente”.
Também no cenário mundial, o relatório do Índice de Desempenho em Mudanças Climáticas 2026 (CCPI 2026) apontam que as ações dos países após o Acordo de Paris ainda têm sido insuficientes, apesar das emissões globais per capita estarem caindo e o uso de energias renováveis em massa estar subindo. Segundo o relatório, é urgentemente necessária mais ambição para limitar o aquecimento global a 1,5 °C.
Um dos pesquisadores responsáveis pelo levantamento, Niklas Höhne, do New Climate Institute, destacou que, em matéria de alterações climáticas, dois terços dos países analisados estão, de fato, reduzindo as suas emissões de carbono. “Dois terços estão reduzindo e ainda há um terço em que as emissões aumentam repentinamente, mas estamos bastante esperançosos de que atingiremos o pico das emissões globais muito em breve. E, então, as emissões irão diminuir, porque a energia renovável está realmente se expandindo exponencialmente e a avançando”.
Ele explicou que o índice avalia o desempenho dos 63 países e da União Europeia em quatro áreas diferentes: Emissões de GEE, Energia Renovável, Consumo de Energia e Política Climática. “Essa é uma característica única: pedimos a 450 especialistas em todo o mundo para avaliar as políticas climáticas que os países estão implementando”, pontuou. “E em todas estas quatro áreas, analisamos o passado. Ou seja, o que aconteceu no passado, qual é a situação atual e qual será o resultado no futuro. Isso torna este índice especial porque analisamos se o desempenho foi bom no passado ou agora”.
Outra pesquisadora que integrou o time que elaborou o relatório, Thea Uhlich, da Germanwatch, explicou que os três primeiros lugares do ranking do Índice de Desempenho em Mudanças Climáticas permanecem vazios, considerando que, segundo as análises, nenhum país está fazendo o suficiente nas quatro categorias. A listagem começa com a Dinamarca, que lidera a classificação pela sexta vez consecutiva, com o melhor desempenho nas quatro categorias. “Notavelmente, a Dinamarca recebe uma classificação muito alta na categoria de energia renovável, classificação alta na política climática em emissões de GEE, mas o desempenho médio no setor de uso de energia e na categoria de uso de energia mostra que a Dinamarca também tem espaço para melhorias”.
A Dinamarca é seguida pelo Reino Unido que, segundo aponta a pesquisadora, subiu uma posição neste ano e continua sua tendência ascendente no ranking dos últimos anos. Em seguida vem Marrocos e Chile, países que apresentaram baixas emissões de carbono. “Quando passamos para os países de desempenho médio, temos aqui a UE, que não é um país, a Alemanha e a Índia”, elencou Thea. “A Índia caiu algumas posições em comparação com a última edição, e isso se deve principalmente ao fato de ela estar em último lugar na categoria de tendência de emissões ou no indicador de tendência de emissões, e o especialista do CCPI deu notas mais baixas para a política climática neste ano, principalmente porque há uma falta de plano para eliminar o uso do carvão”.
SAIBA MAIS
Entre os países com baixo desempenho, a pesquisadora citou a África do Sul, a Indonésia e o país da União Europeia com pior desempenho, a Bulgária. “Entre os países com desempenho muito baixo, vemos 10 países do G20, o que é bastante preocupante porque todos sabemos que os países do G20 são responsáveis por cerca de 75% das emissões globais, por isso têm uma responsabilidade especial em reduzir as suas emissões e, neste momento, nem todos os países do G20 estão fazendo isso com a rapidez necessária”.
Thea destacou, ainda que, curiosamente, os dois potenciais países anfitriões da COP31 - a Austrália e a Turquia - também estão entre os países com desempenho muito baixo. Em terceiro lugar, vem os Estados Unidos da América (EUA), que não enviou delegação à COP30. “Este país caiu algumas posições em relação ao ano passado, principalmente devido a uma pior avaliação da política climática, o que não foi uma surpresa, tendo o presidente Trump retirado os EUA do Acordo de Paris e tentado negar publicamente as alterações climáticas provocadas pelo homem, além de promover nacional e internacionalmente a expansão dos combustíveis fósseis”.
Matéria publicada originalmente na edição impressa do jornal Diário do Pará. Confira!