Para quem tem no açaí a principal fonte de renda, o período de entressafra do fruto é de desafios. Nos açaizais nativos das florestas de várzea, essa fase exige que os extrativistas busquem outra atividade para garantir o sustento da família até que a produção do açaí volte à normalidade.
Na cidade, o período também é de açaí mais caro nos pontos de venda. A solução para o impasse que impacta diretamente a geração de renda e até mesmo a segurança alimentar de parte da população vem de uma tecnologia que pode ser adotada por qualquer família ribeirinha que viva da extração do açaí nas florestas de várzea do estuário amazônico: o manejo de mínimo impacto de açaizais nativos. A solução desenvolvida pela Embrapa Amazônia Oriental já vem transformando a vida de famílias ribeirinhas no arquipélago do Marajó.
Se até meados da década de 90 a economia do açaí estava muito ligada à extração do palmito, hoje o cenário é outro. O grande valor do açaí, há muito reconhecido pelos paraenses, chegou ao conhecimento do mundo e nas últimas décadas o fruto ganhou projeção internacional, fazendo com que parte do açaí produzido e coletado no Pará chegue a países como Estados Unidos, Austrália, Japão.
Somente em 2024, a produção de açaí no Estado do Pará movimentou R$7,4 bilhões, com uma produção de 1,7 milhão de toneladas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mas o que estudos de avaliação de impacto indicam é que esse volume de produção poderia ser ainda maior, caso mais extrativistas adotassem o manejo de mínimo impacto nos açaizais das florestas de várzea – de onde estima-se que saiam mais de 90% da produção total de açaí.
O engenheiro florestal e pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, José Antonio Leite de Queiroz, lembra que quando o açaí começou a se destacar no mercado, na década de 90, as populações ribeirinhas começaram a fazer algumas alterações nos açaizais nativos, retirando todas as outras espécies presentes na área para deixar apenas os açaizeiros.
A intenção era aumentar a produtividade do açaí, mas o que se observava era exatamente o contrário: a produtividade seguia muito baixa. “Quando nós fazíamos um acompanhamento de produtividade com um produtor, raramente passava de uma tonelada a produtividade média da área dele. Se eu pegasse só a área de ocorrência de açaizal, às vezes chegava em duas toneladas. Então, era muito baixa”.
Foi quando a equipe decidiu realizar os estudos e a fazer o acompanhamento das combinações da palmeira de açaí com outras espécies de plantas. Os resultados, publicados no início dos anos 2000, foram acompanhados de uma recomendação de manejo, que os pesquisadores chamaram de manejo de mínimo impacto. “O manejo de mínimo impacto da Embrapa permite aumentar, consideravelmente, a produtividade de frutos. Com base nessa produtividade média de uma tonelada e no máximo duas toneladas por hectare, nós conseguimos chegar a seis toneladas. E o mais importante: mantendo a diversidade do ambiente, que essa era a nossa preocupação”, explica Leite.
Na época, o pesquisador explica que o objetivo do projeto era promover a conservação ambiental e evitar o estabelecimento de uma ‘monocultura’ do açaí, demonstrando que não era necessário e nem vantajoso eliminar todas as outras espécies vegetais do açaizal. Mas o que se observou foi que, para além da manutenção da biodiversidade, houve um ganho significativo em produtividade e ainda foi possível melhorar a distribuição da produção ao longo do ano. “Nós tínhamos um período de safra e um período de entressafra muito bem definido, que na entressafra não produzia nada e na safra produzia bem. Então, nós conseguimos aumentar a produção de frutos durante o ano todo e melhorar a distribuição durante o ano. Isso para nós é o mais importante: a família passou a ter açaí para consumir durante todos os meses do ano. E na maioria dos meses, com um excedente na produção para ter renda”.
O manejo recomenda o estabelecimento de quantidades adequadas de touceiras de açaizeiros e de indivíduos de outras espécies bem distribuídos na área. Através do transplante e plantio de mudas, além de outras intervenções, o modelo pretende melhorar a distribuição das touceiras de açaí que ocorrem naturalmente na floresta e intervir para que a luz possa entrar de uma maneira que consiga chegar a todos os açaizeiros que estão naquele ambiente, já que o açaizeiro precisa de muita luz para produzir bem.
“Em uma área de 50 por 50, nós consideramos conveniente manter pelo menos 24 espécies diferentes de árvores. Quanto mais diversidade você deixar, melhor. Essa é a nossa recomendação para o produtor porque ele vai deixar, nessa parcela de 50 por 50, 65 indivíduos das outras espécies. Se ele conseguisse deixar um indivíduo de cada espécie diferente seria o ideal, mas o mínimo recomendado é 24 espécies”.
A partir da adoção deste modelo, é possível aumentar a produção do açaí de uma para seis toneladas por hectare, números que são comprovados na prática por ribeirinhos que já adotaram o modelo. O pesquisador José Antonio Leite de Queiroz considera que o ideal seria que tal modelo fosse adotado por cada vez mais famílias que atuam na extração do açaí para que se alcançasse um impacto na cadeia e na economia gerada pelo fruto em todo o Estado, aumentando a oferta não apenas para a exportação, mas principalmente para o consumo interno. “Esse é o nosso sonho porque, além de trabalhar e estudar o açaizeiro, eu também sou consumidor. Eu sou paraense, nós temos hábito de consumir o açaí praticamente diariamente e eu gostaria que o preço baixasse um pouco porque o preço está muito alto. E a maneira de baixar o preço é aumentar a oferta”, considera. “Se eu conseguisse passar de 1,7 milhão de toneladas para 3 milhões de toneladas – o que não é difícil de fazer, bastaria eu dobrar essa produtividade da várzea - eu teria uma oferta muito melhor e muito maior, os ribeirinhos continuariam ganhando bem porque eles teriam uma produção em quantidade maior e beneficiaria os consumidores porque o preço diminuiria um pouquinho também”.
Abrigando cerca de 5 milhões de hectares do estuário amazônico - áreas de ocorrência natural dos açaizeiros -, o Arquipélago do Marajó tem a rotina fortemente ligada ao açaí. E no município de Muaná, um dos 16 que compõem o arquipélago, famílias ribeirinhas viram a sua produção multiplicar depois de adotarem o manejo sustentável e de mínimo impacto dos açaizais.
Filhos de Muaná, Maria de Jesus Coelho da Silva, 45 anos, e Arcindo Moraes da Silva, 48 anos, têm a vida ligada ao açaí desde o nascimento. Além da base da alimentação, o fruto é também de onde o casal tira o sustento familiar desde sempre. “O açaí sempre esteve presente na nossa vida, desde que nascemos no meio do açaizal, da floresta. A gente sempre tirou o açaí tanto pra consumir, quanto pra vender”, conta Arcindo.
O que mudou nos últimos anos foi a produção obtida pela família a partir dos açaizeiros nativos que mantêm no quintal de casa. Antes, Arcindo lembra que eles conseguiam obter uma boa renda com o açaí apenas no período da safra, mas na entressafra precisavam buscar outras formas de obtenção de renda. Depois de começarem a fazer o manejo recomendado, porém, eles conseguiram obter uma boa produção do fruto ao longo de todo o ano. “O manejo veio trazer pra nós uma melhora de vida, um sustento, porque depois que nós aprendemos a fazer o manejo, nós conseguimos estender o tempo ao açaí”, explica. “Antes, a gente só conseguia os três meses do verão, agora a gente consegue seis, sete meses do inverno. Agora tem açaí praticamente o ano todo”.
Para que consigam coletar cerca de 100 latas de açaí por semana, o trabalho envolve toda a família, além de duas pessoas que são contratadas para ajudar. Com isso, eles obtêm o fruto que é vendido na cidade de Muaná e para atravessadores, além do prato principal da alimentação do dia a dia. “Não falhou mais o açaí. Melhorou bastante a vida, muito mesmo. O mundo agora está reconhecendo a importância do açaí, que é o nosso alimento. A nossa alimentação aqui é o açaí, o camarão, o peixe, um feijão. A gente pega camarão aqui mesmo no rio, no matapi, com malhadeira”, conta Maria.
Filho do casal, Anderson Coelho da Silva, 25 anos, trabalha com os pais na colheita do açaí. Nascido e criado em Muaná, ele conta que o aprendizado sobre como fazer a colheita dos cachos com a ajuda de uma peconha foi um caminho natural. “Eu já nasci com a convivência do açaí. Desde criança mesmo a gente vai para o mato. Quando a gente ainda não dá conta de subir, a gente ajuda a escolher, a debulhar o açaí. Então, comecei a apanhar açaí acho que desde os meus 14 anos, eu fui aprendendo”, recorda. “E hoje em dia o açaí é o nosso principal sustento familiar, a principal fonte de renda. A gente sobrevive e vive do açaí na safra, na entressafra. Então, a minha relação com a açaí é muito boa porque, além de trazer o nosso sustento diário e familiar - não só o nosso, mas da população local -, o açaí faz parte do nosso alimento, do nosso dia a dia. O açaí é muito importante pra nossa economia, além de ser um alimento muito generoso”.
Anderson conta que, através do açaí, muitos pais muanenses conseguiram financiar os estudos de seus filhos em outras cidades. Ele mesmo morou por cinco anos em Belém para estudar, mas a decisão de voltar a Muaná foi embalada pelo crescimento da renda após o manejo sustentável do açaizal, além da vontade de estar mais perto da família. “Meu pai pagou os meus estudos com a renda do açaí, hoje eu concluí o ensino médio e depois fiz vários cursos, mas através do açaí. Foi da onde veio o sustento pra gente ir para o colégio”, conta. “Eu já morei quase cinco anos em Belém, estudando, mas a minha opção foi voltar pras minhas origens onde, desde pequeno, eu já sou bem acostumado. Então, hoje eu não tenho vontade de sair daqui porque, com a chegada da Embrapa, a nossa produção aumentou muito. Eu sairia, no caso, para buscar conhecimento e voltar para expandir mais a nossa produção aqui através do manejo correto. Aqui eu estou do lado da família e estou onde a gente está ganhando dinheiro, hoje em dia”.
Quando a família de Maria, Arcindo e Anderson passou a retirar 100 latas de açaí por semana, ao invés das 25 a 30 latas que conseguiam extrair antes, o desempenho não passou despercebido pelos vizinhos. E foram eles próprios que passaram o conhecimento adiante, fazendo parcerias com outros extrativistas.
Morando em uma residência próxima da de Arcindo, Miguel Cardoso de Souza, 41 anos, chegou a desconfiar do manejo que o vizinho começou a adotar, seguindo a recomendação e orientação da Embrapa. Mas o entendimento mudou quando ele passou a ver o resultado na prática. “Na época foi primeiro ele que fez. O pessoal dizia ‘rapaz, o Arcindo é doido de fazer isso, não dá futuro’. Mas com uns dois anos pra frente, a gente viu que deu futuro”, conta. “A gente ficou meio em dúvida porque o açaizal está fechado, a gente vai manejar e pensa que não vai dar lucro, mas é justamente quando vem a diferença. No segundo ano que a gente fez o projeto, já mudou bastante. Quando eu fui prestar atenção, já tinha açaí de inverno a inverno”.
Miguel conta que, antes do manejo, a produção de açaí na área se concentrava em quatro a cinco meses no ano. Agora, a produção se estende por praticamente o ano todo. E além do manejo, outra estratégia acabou impactando diretamente na produção de Miguel e de sua esposa Eliana: a criação de abelhas nativas sem ferrão no açaizal. “Nesse projeto da Embrapa sobre o manejo, apresentaram um projeto das abelhas e eu já me interessei no trabalho. Hoje a gente está em quatro caixas aqui. Pra mim, foi uma experiência nova e boa”, conta, ao explicar que as abelhas fazem um importante trabalho de polinização no açaizal, o que também impacta na produção.
Antes da criação das abelhas sem ferrão, Miguel conta que os açaizeiros davam cachos grandes, mas que só produziam frutos da metade para baixo. Com a criação das abelhas e o manejo sustentável do açaizal, é raro encontrar um cacho que não esteja integralmente tomado pelos frutos. “Eu senti muita diferença na produção do fruto. Primeiramente, a gente não fazia o manejo adequado, a gente queria saber do açaizal fechado. Então, a partir do projeto a gente percebeu bastante essa mudança porque a gente não deixou crescer muito o açaizal, a gente deixa em um tamanho bom justamente para as abelhas ficarem indo para o cacho de açaí e trazendo o pólen para cá”.
O impacto das abelhas sem ferrão na polinização do açaí começou a ser estudada pela Embrapa há cerca de sete anos, a partir de uma demanda vinda dos próprios produtores que constatavam a presença de abelhas nas flores dos açaizeiros. Os estudos identificaram que a meliponicultora, a criação de abelhas sem ferrão, é capaz de aumentar a produtividade do açaizeiro através da polinização.