Mais do que registrar uma memória, a fotografia também é capaz de subsidiar a pesquisa científica e histórica acerca de uma localidade. E quando Belém celebra 410 anos de fundação, registros raros da cidade produzidos no início do século XX ficarão mais acessíveis a pesquisadores e à população em geral.
Uma parceria entre o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e o Portal Brasiliana Fotográfica resultará na primeira exposição digital de parte do acervo fotográfico do Arquivo Guilherme de La Penha, localizado no Campus de Pesquisa do museu, na avenida Perimetral. Ao todo, 34 fotografias de Belém integram essa primeira mostra que estreia no dia do aniversário da capital paraense, 12 de janeiro.
O conjunto de documentos que formam o arquivo está relacionado à própria memória da criação do Museu Goeldi, em 1866. A coleção fotográfica do arquivo reúne cerca de 20 mil documentos, entre os quais estão 1.421 negativos em vidro produzidos entre o final do século XIX e primeira metade do século XX. E é exatamente uma seleção de fotografias que integram esse arquivo que serão disponibilizadas digitalmente, através do Brasiliana Fotográfica – plataforma digital gerenciada pela Fundação Biblioteca Nacional e pelo Instituto Moreira Salles.
A partir da parceria, o MPEG se torna a primeira instituição da Amazônia a integrar a plataforma Brasiliana Fotográfica, democratizando o acesso do público a registros históricos e científicos da região. A chefe do serviço de arquivo e memória do Museu Paraense Emílio Goeldi, Lilian Bayma, explica que essa parceria com a Brasileira Fotográfica se concretizasse, a equipe já vem conversando com a plataforma desde meados de 2022, contando com a participação fundamental do historiador e curador do Arquivo Guilherme de La Penha, Nelson Sanjad.
Lilian aponta que, desde o início das conversas, a plataforma se mostrou muito interessada em abrigar a exposição que divulga parte deste acervo. “A Brasiliana Fotográfica é uma união de esforços da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles. Então, tem várias instituições que já fazem parte do repositório e o Museu Goeldi é a primeira instituição do Norte do Brasil a participar”, destaca. “Para a gente, isso foi muito importante porque o nosso acervo fotográfico, até então, só estava disponível presencialmente, aqui no campus de pesquisa do Museu, em Belém”.
Para além de preservar, conservar e guardar essa documentação, Lilian conta que o setor sempre manteve uma preocupação em também disponibilizar o acervo para o acesso de pesquisadores e da população em geral. E o repositório foi um canal que possibilitou isso, além de outros esforços que vêm sendo desenvolvidos pelo Museu Goeldi. “Além da Brasiliana, a gente também está implantando o AtoM. A gente tem uma parceria com a Fiocruz que já utiliza esse software e que nos deu alguns treinamentos, mas a gente ainda está implantando. Com o AtoM a gente também pretende disponibilizar os documentos históricos”.
O acervo de fotografias de Belém que será disponibilizado na plataforma data do início do século XX. São resultado da digitalização dos negativos de fotografia em vidro que foram encontrados no Parque Zoobotânico do Museu, na avenida Magalhães Barata. Lilian explica que, antes do campus de pesquisa da Perimetral ser construído, em meados de 1982, todo esse material ficava concentrado no Parque Zoobotânico.
E o que esses negativos revelam vão desde o espaço geográfico da cidade de Belém da época, até mesmo as vegetações encontradas no período e até mesmo os hábitos de vestimenta dos moradores da capital paraense no início do século XX. “Tem registros de diferentes pontos da cidade, principalmente da avenida Magalhães Barata, do Parque Zoobotânico, da Caixa d’água de São Brás. Tem arquivos do Parque do Utinga, do Ver-o-Peso”, enumera Lilian. “Muitos registros, também, são decorrentes de pesquisas. Então, temos registros do Jacques Huber (ex-diretor do Museu Goeldi) porque a fotografia era usada para isso, para registro de pesquisa”.
O chefe substituto do serviço de arquivo e memória do MPEG, Pablo Borges, lembra que também existem registros de algumas ilhas de Belém, como é o caso da Ilha de Mosqueiro. “Mosqueiro que era um espaço de recreação, então, essa ocupação e essa urbanização que acontece lá na ilha, também naquele período, estão entre os registros”, destaca, ao mostrar uma fotografia do acervo que mostra uma praia em Mosqueiro, onde se registra a presença do próprio Emílio Goeldi, entre outros pesquisadores. “Essa entrada do Museu Emílio Goeldi nessa rede de contribuição que é a Brasiliana, enquanto repositório, é muito importante. Hoje, o Museu Goeldi é a 15ª instituição que faz parte dessa rede que tem esse propósito de divulgar os acervos. Então, o ganho para a instituição é muito grande e, para nós, enquanto serviço de arquivo e memória, também”.
Mais do que salvaguardar as documentações correntes de funcionários que atuam no Museu, o arquivo também cumpre esse papel de preservar os arquivos históricos que advém dessa documentação, seguindo os parâmetros estabelecidos pela legislação arquivística vigente. E a história desse acervo fotográfico e documental histórico se mistura com a própria história do setor. “A nossa história, enquanto departamento, acontece também nesse período. Então, há essa transformação desse arquivo que existia no Parque Zoobotânico, mas que passou a ter essa preocupação em preservar também essa documentação histórica como fonte de pesquisa. Isso acontece nesse período da década de 80, quando o arquivo também ganha esse destaque como unidade para preservar isso aqui como fonte de pesquisa. E hoje estamos aqui como uma das coleções do Museu, são as coleções históricas documentais”, destaca Pablo. “E todo esse nosso acervo, hoje, é preservado por um sistema que é o que tem de mais moderno contra incêndios”.
A primeira exposição digital do Portal Brasiliana Fotográfica que contempla a seleção de fotografias do arquivo histórico e documental do Museu Paraense Emílio Goeldi foi disponibilizada no dia 12 de janeiro de 2026.
As fotografias estão exibidas em um álbum em formato de exposição digital, acompanhada de textos curtos que contextualizam o público sobre as imagens.
Entre os destaques estão registros urbanos e científicos que revelam a cidade em transformação e a presença do Museu Goeldi nesse processo, como o entorno do Parque Zoobotânico e as atuais Avenidas Magalhães Barata e Gentil Bittencourt.
Matéria publicada originalmente na edição impressa do jornal Diário do Pará. Confira!