Dunas de mais de 10 metros de altura que se comparam aos conhecidos Lençóis Maranhenses, mas que estão localizadas no fundo do mar, na região oceânica da Amazônia. O achado é parte das novidades registradas por pesquisadores que participam de um mapeamento inédito com o objetivo de avaliar a variabilidade da biodiversidade marinha em diferentes regiões do país, incluindo a Amazônia Azul, como é chamada a extensão de quilômetros de mar amazônico que vai do Amapá até o Piauí.
A expedição científica faz parte de um projeto de âmbito nacional vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - Biodiversidade da Amazônia Azul (INCT-BAA), criado através de um programa do CNPq. Os cruzeiros que resultaram nos achados inéditos foram realizados a bordo de navios laboratório idênticos, que saíram em expedição no mesmo período, usando a mesma metodologia e realizando o mesmo tipo de coleta de dados nas quatro regiões brasileiras: Norte, Nordeste, Sudeste e Sul.
Na Região Norte, a pesquisa é liderada pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), sob a coordenação do professor Eduardo Paes. Ele explica que o projeto permitirá comparar nacionalmente como a biodiversidade marinha varia ao longo da salinidade, em diferentes regiões do país. “Esse cruzeiro que fizemos é pioneiro, coloca o Pará e a Ufra no cenário nacional das pesquisas marinhas. Vamos ter ainda mais três cruzeiros desses. Esse primeiro foi um piloto para a gente conhecer melhor e testar os equipamentos que foram adquiridos e verificar qual seria a melhor forma de fazer melhores coletas posteriormente”, explica o professor.
Ainda que piloto, o cruzeiro já permitiu registrar ocorrências até então desconhecidas na Amazônia Azul. O que se observou, de imediato, foi a presença dessas dunas localizadas há 40 metros de profundidade, no mar amazônico. Essa área, que vem sendo chamada pelos pesquisadores de Campo de Megadunas, foi inclusive registrada em vídeo. “A gente teve a oportunidade de levar vários equipamentos para filmagem submarina e fizemos filmagens até 100 metros de profundidade, nesse primeiro momento. E com esses equipamentos a gente conseguiu visualizar uma série de situações que a gente não conhecia”, explica o professor da Ufra. “Uma delas, que foi uma surpresa muito grande, foi um campo de dunas submarinas. São dunas muito grandes e são dunas ativas”.
Eduardo Paes explica que as dunas ativas são aquelas que ainda estão em movimento, onde o transporte de areia é constante. Um exemplo prático dessa ocorrência pode ser visto quando se observam as dunas de areia de Salinópolis, por exemplo. Quando se observa essas dunas em um momento que está ventando muito, é possível ver aquela areia fininha sendo movimentada pelo vento. Com o tempo, aquela areia vai sendo levada para outros lugares pela força do vento e aquele mesmo lugar também recebe areia de outros lugares. “Então, uma duna ativa é onde tem o vento que fica movimentando a areia fininha que vai, aos poucos, sendo transportada para outros lugares. No fundo do mar não tem vento, claro. Mas tem correntes de maré muito fortes”, relaciona. “E a nossa região do Pará, do Maranhão e do Amapá é conhecida como uma região de macro-marés. Temos marés muito grandes que provocam correntes muito fortes no fundo, e essas correntes de maré no fundo passam a atuar como o vento atuaria, transportando o sedimento e formando essas dunas. Por isso que elas são ativas”.
As dunas submersas encontradas têm cerca de 10 metros de altura, do topo até a base. Mas ainda não se sabe exatamente o tamanho desse campo de dunas. “A gente verificou a existência desse campo de dunas, mas a gente não sabe exatamente o tamanho dele. A gente tem uma estimativa, ainda grosseira, que são dunas paralelas à linha de costa e elas começam a acontecer, no fundo do mar, a partir de 40 metros de profundidade e vão mais ou menos até uns 70 metros de profundidade”, explica o professor Eduardo Paes. “A extensão delas, paralelas à costa, não temos estimativa, mas são no mínimo dezenas de quilômetros e isso é um macro habitat importantíssimo que só existe na Amazônia. Isso não está registrado em nenhum lugar do Brasil. E isso, por si só, já é uma grande novidade”.
O professor explica que as dunas não estão totalmente mapeadas porque o cruzeiro não tinha esse objetivo, mas sim o de coletar material biológico e verificar a presença de algum elemento desconhecido. Mas foi possível filmar a base das dunas e quantificar minimamente para que, em próximos cruzeiros ou próximos projetos, essas dunas possam ser melhor mapeadas. “Esse ambiente causou uma surpresa muito grande e a gente pretende, então, elaborar projetos para estudar especificamente esse campo de dunas”.
Entre os achados do mapeamento também estão um Jardim de Esponjas centenárias e um campo de rodolitos, que são algas calcárias, organismos vivos, mas que se assemelham a pedras. O professor explica que na região da Margem Equatorial ocorre uma longa extensão de ambientes recifais, que têm função ecológica idêntica a de uma barreira de recifes. Esse ambiente agrega muitos organismos, esponjas, algas, moluscos e uma variedade enorme de invertebrados e peixes também. “Nesse ambiente recifal existem várias feições. A gente se deparou com uma que já era conhecida, mas a gente detalhou mais ainda porque a gente fez um conjunto grande de imagens científicas. E os dois ambientes importantes que a gente achou nesse ambiente recifal foi o que a gente chamou de Jardim de Esponjas, onde realmente existe uma grande diversidade de espécies de esponjas, desde esponjas menores a até esponjas de mais de 1,5 metros de altura estimada e que são centenárias”, explica.
“É um mosaico de ambientes. Então, você tem um Jardim de Esponjas e tem momentos também que aparece uma outra feição muito importante que é um Campo de rodolitos, que são algas vermelhas calcárias. Essas algas vão se agregando umas às outras e vão formando um habitat rochoso que, em volta dele, vem algas, peixes, e isso torna o ambiente muito rico. A gente conseguiu ver vários campos de rodolitos e inclusive trouxemos coletas de vários que vão ser analisados aqui e fora do Brasil também”.
Tais ocorrências são novidades porque ainda não haviam sido registradas. E o que se espera é que muitas novidades ainda sejam reveladas a partir das amostras coletadas de água, organismos, material em suspensão e sedimento que estão sendo analisadas sob o ponto de vista bioquímico, genético e de análise de DNA. “Tudo isso leva tempo. A gente não tem ainda resultados disso porque são análises bioquímicas relativamente sofisticadas, caras e algumas delas estão sendo feitas aqui no Pará e outras a gente não tem como analisar aqui e envia para São Paulo, para o Rio de Janeiro e para o Rio Grande do Sul. Mas a gente tem uma expectativa grande de ter bastante novidades a partir dessas análises, também”, aponta Eduardo Paes.
O professor reforça que não se pode perder de vista que o mar amazônico também é Amazônia, assim como a área de floresta. E esse mar é único, apresenta características próprias que são bem diferentes do resto do Brasil. Exatamente por isso, ele destaca que o projeto, mais do que estudar a biodiversidade, também pretende atrair a atenção para as Ciências Marinhas e para a necessidade de ampliar a estrutura de pesquisa, tanto de pessoal, quanto de estrutura física na região amazônica. “A Amazônia é muito competente, com um grande contingente de pesquisadores de alto nível, mas na parte de água doce e da floresta, onde se tem muita expertise na Amazônia. Mas no mar, ainda existe muito pouca gente se dedicando em alto nível para o mar”, considera o professor. “Por isso que, de certa maneira, foi importante porque o Pará, através da Ufra, pela primeira vez figura a nível nacional em um estudo marinho de maior profundidade. E isso tem muita importância porque além de conhecer aquilo que é muito pouco estudado ainda, que é a biodiversidade do mar amazônico, isso desperta o interesse em aprofundar, em aumentar a nossa massa crítica intelectual, formar mais pesquisadores nessa área”.
Durante a expedição na Amazônia, o professor aponta que também estiveram a bordo colegas do laboratório em que atua, além de alunos de mestrado e doutorado e alguns pesquisadores do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de Recife. Ainda estão previstas outras três expedições científicas na região Amazônica, a bordo do Ciências do Mar II. A expectativa é que o próximo cruzeiro ocorra entre meados de abril e maio deste ano, período em que se registra o "máximo da pluma" no Rio Amazonas, que é quando o Rio Amazonas penetra no mar. “O nosso trabalho é inicial, pioneiro, e a gente está com o objetivo de colocar, definitivamente, o Pará no cenário nacional da oceanografia e da ecologia marinha e incentivar os talentos amazônidas a também se voltarem para o mar e estudarem essa grande diversidade que tem no mar Amazônico”.